O Paraíso, Paes Eva e Adão
| Postado em Diversos | Data que Postou 10-11-2009
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Antes de qualquer coisa: Ah! Que orgulho de ser carioca! Orgulhoso sim de viver no paraíso denominado por alguns como São Sebastião do Rio de Janeiro. Terra de lindas paisagens e mulheres mais bonitas ainda. Cidade que consegue abrigar em poucos quilômetros de extensão vistas como a do Pão de Açúcar, Corcovado, Avenida Niemayer, Ponte Rio Niterói, Aterro do Flamengo, Vista Chinesa, Pedra da Gávea, Copacabana, Urca…enfim, o post tem limite de caracteres e chega de comprovações empíricas.
É mais do que propício, no momento atual, citarmos ainda que tais belezas e encantos nos proporcionaram algo jamais visto na história: No espaço de uma década conseguirmos sediar 4 dos mais importantes eventos esportivos do mundo: Jogos Pan-Americanos, Copa do Mundo de Futebol, Jogos Olímpicos e Para-Olímpicos.
Porém no paraíso nem tudo foram flores. Tudo parecia tranqüilo e calmo, Eva e Adão curtiam seus dias de nudez e ausência de poluição, até que a dita cuja abocanhou a maçã, sabendo que poderia ser punida por este ato, mas afinal de contas, o que uma simples mordidinha na fruta poderia causar? Abocanhar outras coisas não seria pecado? Nada disso interessa mais, o fato é que desde então o pecado foi disseminado pelo mundo.
5 de Janeiro de 2009. Exatos 4 dias após a posse do novo prefeito da cidade do Rio de Janeiro iniciam-se as operações denominadas “Choque de Ordem” sob a alegação, do excelentíssimo Sr. Eduardo Paes, que a “desordem urbana era a raiz do problema da criminalidade e da violência”.
Já a alegação de nosso digníssimo secretário de Ordem Pública era a de que se fazia necessário “reeducar o povo carioca e devolver a legalidade ao espaço público”. Penso eu que o advogado Paes e o economista Bethlem não tenham lido em suas graduações textos sobre Foucault, Marx, ou quem sabe alguma coisa sobre Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Debbord, Weber, e talvez até Piaget. Se os mesmos achavam pouco eruditos tais autores, não precisava muito, bastava um pequeno passeio em seus carros oficiais pela Avenida Rodrigues Alves e darem uma pequena lida em algumas pilastras pintadas por um dos maiores dos profetas: Gentileza gera gentileza! E a contrapartida, “violência gera violência”.
Desde então temos visto ações de caos “ordem” como, apreensão de mercadorias de vendedores ambulantes, tratores derrubando imóveis construídos ilegalmente, veículos de transporte alternativo sendo rebocados a revelia, guardas municipais agredindo trabalhadores informais e até placas de publicidade sendo destruídas. Não, eu não sou contra a moralização, a ética e a ordem. Mas sou veementemente contra as alegações para tais operações e a forma como as mesmas se dão.
Como tirar a fonte de renda do trabalhador informal sem gerar novas frentes de emprego? Para que derrubar imóveis se há a possibilidade de legalizá-los e usá-los com outros fins que atendam a população? Por que destruir placas de publicidade se uma legislação pode ser feita para padronizá-las de modo a não poluir visualmente o paraíso? Enfim, as alegações são erradas, as ações são erradas, está tudo errado!
Não, eu não sou burro, e sei que por trás de tudo isso existe uma máquina que gera muito, mas muito dinheiro para o estado, que é a máquina da violência. Só o episódio do helicóptero derrubado por traficantes gerou uma verba para o estado de R$250 milhões, onde grande parte dessa verba vai ser repassada para a prefeitura. Ah, e ainda vamos ganhar um novo helicóptero caveirão sem precisar mexer nessa grana! A propósito, as obras na Cidade da Música foram retomadas, obras que geraram alguns trocados pro Maia, e que agora gerarão alguma merreca para o Paes.
E as milícias? Onde entram nessa história. Vou deixar o próprio gerente do município falar, afinal uma imagem vale por mil palavras.
Sr Paes, penso que o paraíso precise sim de um choque de ordem. Mas que esse choque seja dado na educação, com investimentos nas escolas municipais, responsáveis pelo ensino básico, responsável pela educação estar do jeito que está, um outro choque nos postos de saúde, responsáveis pela atenção primária de saúde, que é deficitária que faz com que as outras esferas da saúde fiquem superlotadas e não funcionem. E quem sabe ainda um choque na cultura e no esporte, com políticas públicas que visem o bem estar de nossos jovens, dando a eles um lugar, um senso de pertencimento e, por conseguinte, uma identidade, para que não precisem se identificar com a sedução que o poder do tráfico proporciona. Será que estou falando de algo que o senhor não aprendeu nos 6 partidos políticos pelos quais já passou?
Como ler não parece ser muito o seu forte, vou parando por aqui, pois já me alonguei demais, mas antes gostaria de lançar uma pergunta: Quem seriam os culpados de tudo ter ficado tão ruim no paraíso? Eu mesmo tenho a resposta: Paes Eva e Adão!
Esse título é baseado no artigo “Cabral, Eva e Adão” do digníssimo Prof. Arthur Leal



